Friday, September 26, 2008

os canários são calmos, mas algumas aves podem ser mais agitadas

"A dor é bactéria, cuspo viral, réptil viscoso que faz ninho.Assim que nos entra, nunca mais nos deixará. Mastiguemos ambas as palavras:nunca mais.Invade nos silênciosa.Mistura se com todo o sangue e tripas que há em nós, comanda nos sem se deixar ver.
...Julgamos, muitas vezes, que a dor já lá não ha de estar, confiantes no grande remédio que nos ensinam cura tudo.
O tempo.
E contudo há sempre um dia, um acontecimento, uma conversa, uma situação que observamos, ou esse tal objecto insignificante que reencontramos.
E a serpente morde nos outra vez os tendões."
[Canário_Rodrigo Guedes Carvalho]

Acabei de ler Canário do Rodrigo Guedes Carvalho e não gostei, simplesmente adorei. É um livro de afectos, desejos, ambições e medos, uns exteriorizados, outros escondidos, porque socialmente é melhor parecer do que ser.Várias histórias paralelas e que descobrimos unirem se num só ponto.Histórias que a determinada altura se unem por uma coincidência que se vem a verificar não ser feliz.
Geraldo, um jovem preso que viu a sua vida desmoronar se no dia em que mata o amante da mãe depois de este a ter agredido mais uma vez.Maria Antónia,mulher de um escritor famoso, que se anulou voluntariamente por de um amor desgastado e vazio de afectos, uma familia que considerava imaculada.Camila, filha do escritor, mulher fragil, com um pai ausente e uma mãe mal amada. Impotente perante um filho autista e a dor de um casamento que acabou por ter um marido fraco incapaz de lidar com o desequilíbrio que a doença de Pedro provocou na conjugalidade.Alexandre, escritor famoso e consagrado, como tal egocêntrico e obcecado por ser criativo em cada livro que cria. Toda a sua vida feriu emocionalmente os que o rodeiam anulando as suas identidades e revelando o seu profundo narcisismo. É ele o ponto comum de todo o livro.
Ao longo do livro, vivemos imposições sociais e conflitos emocionais a que não escapamos incólumes, ou por vivermos entre grades de uma cela, ou porque algemas invisiveis nos prendem as mãos.Algemas que herdamos, da familia e da sociedade, e que no fundo, bem lá no fundo até alimentamos com mais ou menos luta numa sociedade, que nos rouba os afectos. Paradoxalmente, os mesmos afectos que todos precisamos, procuramos e resgatamos de quando em vez. Afinal, todos somos também canários…

23 comments:

Maria said...

Adorei este livro, tal como os outros do RGC.
Gosto mesmo é da maneira como ele escreve...

Beijo

Apenas eu said...

Não li o livro. Mas depois desta tua descrição estou tentada a ler.
A frase que mais me prendeu aqui e que me deixou a pensar foi:
"Afinal, somos também canários"...

Beijos Velas

Vício said...

nem todos!

nat. said...

pois... depois de ler esta descrição... acho que é mais um livro para a minha wishlist de livros...

Beijinho

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ said...

Sarava!


Obrigada pelo conselho literário, querido canário!

Será por isso o amarelo do teu blog?

:D


ah ...amei a musica!


beijinhos

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ said...

Ah...n te esqueças do selo:p


beijinhos

Teresa Durães said...

não li. mas devo ser como as outras aves. talvez mesmo uma caturra que sabe dar afecto mas apenas ao seu par. senão, bica!

Cruztáceo said...

achoq ue não há animal mais carente que o ser humano..
Obrigado pelo comentário no "apontamentes" e não está assim tão bem escrita...Não o suficiente! Fui incapaz de lhe dar um final mais atraente, faltou-me a veia poética...Queria ter sido mais sucinto para ter desenvolvido mais a descrição dos cenários.

Maria Laura said...

Pronto, tenho que ler o livro. Essa frase que transcreves... "na mouche"!!

PAH, nã sei! said...

ok... o senhor vai ter que lhe enviar a comissão!!
pois com uma "publicidade" destas é difícil não ficar com vontade de ler :)

instantes e momentos said...

lindissimo teu blog. Gostei muito daqui. Vou voltar sempre. Parabens, muito bom.
Tenha um belo final de semana.
Maurizio

pn said...

...somos?

a ser ave
queria-me antes
AQUILA

e mesmo que não
antes pardal
antes pardal,
esses rafeiros voadores.

(nesse livro de desgraças, ainda assim, alguma coisa há que corra bem?)

mariazinha said...

piu.

;)

beijo*

PS:fiquei com vontade de ler.

maria josé quintela said...

já li. e também gostei.

e sabes uma coisa? a realidade supera sempre a ficção...


beijo.

_E se eu fosse puta...Tu lias?_ said...

Sarava!


... já vi o selo! Mas n vi o meu link nem os elogios a mim direccionados :p

ai ai ai ai ai :D


toca a actualizar e a passar testemunho ;)


beijocas

poetaeusou . . . said...

*
uffff,
que susto . . .
,
o livro das entrelinhas,
algemas... visiveis algemas,
e que a vivencia de guedes carvalho
expressa bem,
vivências, de um honesto pivot,
,
conchinhas,
,
*

Pedro Branco said...

Vou tentar ler (confesso que não sou, infelizmente, um grande leitor...).

rjl said...

:*

Mãos de Veludo said...

por acaso, estive para comprar esse livro ha uns tempos, mas n sabia s seria bom... dps destas tuas palavras, vou ter mmo q o ler :D

fatima pb said...

Gosto dele, Rodrigo Guedes Carvalho, mas o pouco tempo que me resta para as leituras faz-me mt selectiva nas escolhas e ..

Mas depois de te ler, acho que vou mesmo comprar O canário.
Apesar de saber que devo evitar as tragedias inventadas, ja me bastam as reais para prenderem na cela da melancolia...

Beijinhos para ti!!

miak said...

Obrigado amiga. Deixaste-me curioso.

Mateso said...

canários... breves, canoros e mortais!
Bj.

poca said...

fiquei com vontade :)
obrigada pela dica