Wednesday, September 19, 2007

verdade verdadinha...ou não fosse eu uma trintinha

A juventude de hoje, na faixa que vai até aos 20 anos, está perdida. E está perdida porque não conhece os grandes valores que orientaram os que hoje rondam os trinta. O grande choque, entre outros nessa conversa, foi quando lhe falei no Tom Sawyer. 'Quem? ', perguntou ele. Quem?! Ele não sabe quem é o Tom Sawyer! Meu Deus... Como é que ele consegue viver com ele mesmo? A própria música: 'Tu que andas sempre descalço, Tom Sawyer, junto ao rio a passear, Tom Sawyer, mil amigos deixarás, aqui e além...' era para ele como o hino senegalês cantado em mandarim.
Claro que depois dessa surpresa, ocorreu-me que provavelmente ele não conhece outros ícones da juventude de outrora. O D'Artacão, esse herói canídeo, que estava apaixonado por uma caniche; Sebastien et le Soleil, combatendo os terríveis Olmecs; Galáctica, que acalentava os sonhos dos jovens, com as suas naves triangulares; O Automan, com o seu Lamborghini que dava curvas a noventa graus; O mítico Homem da Atlântida, com o Patrick Duffy e as suas membranas no meio dos dedos; A Super Mulher, heroína que nos prendia à televisão só para a ver mudar de roupa (era às voltas, lembram-se?); O Barco do Amor, que apesar de agora reposto na Sic Radical, não é a mesma coisa. Naquela altura era actual... E para acabar a lista, a mais clássica de todas as séries, e que marcou mais gente numa só geração :



O Verão Azul. Ora bem, quem não conhece o Verão Azul merece morrer. Quem não chorou com a morte do velho Shanquete, não merece o ar que respira. Quem, meu Deus, não sabe assobiar a música do genérico, não anda cá a fazer nada.
Depois há toda uma série de situações pelas quais estes jovens não passaram, o que os torna fracos: Ele nunca subiu a uma árvore! E pior, nunca caiu de uma. É um mole. Ele não viveu a sua infância a sonhar que um dia ia ser duplo de cinema. Ele não se transformava num super-herói quando brincava com os amigos. Ele não fazia guerras de cartuchos, com os canudos que roubávamos nas obras e que depois personalizávamos.
Aliás, para ele é inconcebível que se vá a uma obra. Ele nunca roubou chocolates no Pingo-Doce. O Bate-pé para ele é marcar o ritmo de uma canção.
Confesso, senti-me velho...Esta juventude de hoje está a crescer à frente de um computador. Tudo bem, por mim estão na boa, mas é que se houver uma situação de perigo real, em que tenham de fugir de algum sítio ou de alguma catástrofe, eles vão ficar à toa, à procura do comando da Playstation e a gritar pela Lara Croft.
Óbvio,
nunca caíram quando eram mais novos. Nunca fizeram feridas, nunca andaram a fazer corridas de bicicleta uns contra os outros. Hoje, se um miúdo cai, está pelo menos dois dias no hospital, a levar pontos e fazer exames a possíveis infecções, e depois está dois meses em casa fazer tratamento a uma doença que lhe descobriram por ter caído. Doenças com nomes tipo 'Moleculum infanticus', que não existiam antigamente.
No meu tempo, se um gajo dava um malho muitas vezes chamado de 'terno' nem via se havia sangue, e se houvesse, não era nada que um bocado de terra espalhada por cima não estancasse.
Eu hoje já nem vejo as mães virem à rua buscar os putos pelas orelhas, porque eles estavam a jogar à bola com os ténis novos. Um gajo na altura aprendia a viver com o perigo. Havia uma hipótese real de se entrar na droga, de se engravidar uma miúda com 14 anos, de apanharmos tétano num prego enferrujado, de se ser raptado quando se apanhava boleia para ir para a praia. E sabíamos viver com isso. Não estamos cá? Não somos até a geração que possivelmente atinge objectivos maiores com menos idade? E ainda nos chamavam geração 'rasca'...
Nós éramos mais a geração 'à rasca', isso sim. Sempre à rasca de dinheiro, sempre à rasca para passar de ano, sempre à rasca para entrar na universidade, sempre à rasca para tirar a carta, para o pai emprestar o carro. Agora não falta nada aos putos.

Eu, para ter um mísero Spectrum 48K, tive que pedir à família toda para se juntar e para servir de presente de anos e Natal, tudo junto. Hoje, ele é Playstation, PC, telemóvel, portátil, Gameboy, tudo.

Claro, pede-se a um chavalo de 14 anos para dar uma volta de bicicleta e ele pergunta onde é que se mete a moeda, ou quantos bytes de RAM tem aquela versão da bicicleta.
Com tanta protecção que se quis dar à juventude de hoje, só se conseguiu que 8 em cada dez putos sejam cromos.
Antes, só havia um cromo por turma. Era o totó de óculos, que levava porrada de todos, que não podia jogar à bola e que não tinha namoradas.
É certo que depois veio a ser líder de algum partido, ou gerente de alguma empresa de computadores, mas não curtiu nada.
Artigo de Nuno Markl - para a geração dos 30


Eu não diria melhor!

Como te percebo Nuno!
AH! É verdade...Confesso que tenho o Verão Azul em DVD, oferta do mano no Natal!

21 comments:

Alf said...

Eu cá ofereci o Verão Azul aos meus filhos, para eles crescerem como deve ser :)

Paula Raposo said...

Um artigo excelente do Nuno Markl. Muitas semelhanças para a geração dos 50. Eh eh eh beijos.

PintoRibeiro said...

Sem tempo, sem tempo, bjinho.

Carracinha linda! said...

O Markl disse tudo!

Já não vejo miúdos a brincar na rua. Já não vejo os meninos a jogar ao berlinde ou a lançar o pião. Nem as meninas a saltar á corda ou ao elástico. Estarão essas brincadeiras a ficar extintas?

Bjs

Maçã de Junho said...

Epá eu lembro-me bem de parar de brincar junto á linha ferrea do Norte,num sitio chamado Mocambedes, onde o avô do meu primo era chefe da estação onde apenas passava diariamente a automotora das 17h para ir ver o verão azul!!!!! brincavamos num sitio perigoso, onde púnhamos os ouvidos nos carris para ouvir se o comboio vinha ai, íamos para o riacho apanhar sardões e rãs e uns de nós cairam umas dezenas de vezes nas pedras com limo, comíamos amoras silvestres e pinhões, outras vezes roubávamos fruta dos quintais... E era a melhor fruta do mundo.... e foi tão bom!!!!!!
Só tive um computador em casa quando andava no 9º ano (14 nos) e era um pc que so funcionava em MS DOS e com disket de arranque... Nunca fui pior aluna por bater os meus trabalhos da escola na velha maquina de escrever do meu avô que era o ultimo grito da tecnologia (automática).

Ai ai que saudades dos bons velhos tempos....


PS: ainda estou á espera de ver esses dvd's......


beijos linda
M

Miudaaa said...

De vez em quando e de quando em vez, faz-nos bem relembrar o que sabemos, mas por vezes parece que o esquecemos.

O Nuno Markl, fala com certeza do que diz, porque a realidade é uma, ele está cheio de razao.

Grandes Tardes. Grandes Dias.

Beijo por o trazeres até nós!!!
miudaaa

Rui said...
This comment has been removed by the author.
Sr Mendes said...

Olha lá, ó filhinha e se escrevesses alguma coisinha tirada da tua cabecinha?? Fartos de copy&paste andamos nós...

Beijo
Sr Mendes

vida de vidro said...

:)) Até eu que sou um bocado mais que trintinha, compreendo bem esse fosso geracional. E lembro-me de tudo isso. :)**

inBluesY said...

é muito bom este teu "COPY/PASTE" nada como relembrar as palavras precisas dos outros


:D
beijos :)

Tó Gomes said...

Acho uma piada, tenho a mesma idade que vós e na altura nao passava o tempo a ver tom sawyers nem dartacões nem lagoas azuis... eles crescem em frente ao pc vcs cresceram em frente á tv... markl é um hipocrita. tenho dito :)

borrowing me said...

velinha
não desisto do quê?

ando cada vez pior
e a tentar escrever o que cá dentro me enche de falta de vontade de avançar todos os dias
estou a ter dificuldade "in letting go"...
entendes?
já enchi páginas de textos
nenhum me parece correcto para marcar uma despedida
entre o que há anos tento conquistar e que agora me está a ser imposto esquecer

bjs grandes
até já

pn said...

Fantásticas, estas "velhotas" trintonas!!!

Lívio said...

tá tudo muito bem, tá tudo muito bom...mas há radicalismo a mais neste artigo e a história repete-se: eu só tive televisão aos 17, embora nascesse com ela, estudei muitos (mas muitos mesmo) anos à luz do candeeiro a petróleo, etc. etc. etc.
È certo que se vão perdendo coisas mas há gente que recupera outras e a modernidade não se trava. Trava-se sim o apetite dos meninos, dizendo não muitas vezes (e não só de vez em quando) para refrear o consumismo a que são violentamente sujeitos todos os dias. Tenho um puto de nove anos e vou refreando o mais possível a atitude consumista dele, preenchendo o seu tempo livre com o máximo de actividades que ele gosta: música, judo, natação, escutismo, work-shops artísticos, para além das aulas.
Quanto a mim é a alternativa!

Nani said...

Pronto! Estou à 5 minutos a cantar: "Tu andas sempre descalço Tom Sawyer ... junto ao rio a passear Tom Sawyer ..."

João Silva said...

eu já sou do tempo do 128k! mas o espírito está lá todo!

;) Exelente texto do sr. Markl

impulsos said...

Este artigo está muito bem escrito!
Esta geração que se está agora a criar, é uma infeliz... têm tudo, não se tendo de esforçar para nada!...
E depois ainda exigem mais e mais, como se fosse uma obrigação dos pais!
É uma tristeza...

Que saudades que esse vídeo ali em cima, provocou em mim!
Via-os todos, aos Domingos logo a seguir ao almoço... eles agora vêem violência!

Enfim... sinais de que(como dizia a minha avó), é o fim do mundo!

Beijo

Cristina Pedro said...

hihihi.
Eu cá também já pus o meu filho a ver o Verão Azul.
E ele esqueceu-se da Nintendo, bolas, quem é que consegue viver sem uma nintendo????!!!!! e o resto todo........

Agora me lembro, será que o meu filho já subiu a uma arvore???? e quase arrancou um dedo porque caiu???!!! Acho que não!!! Eu tinha caido para o lado......

caditonuno said...

passa no meu blog e dá-me umas ideias. é sobre,principalmente,os 80's e a nossa juventude.
gostei do blog.

PAH, nã sei! said...

eu ofereci ao mano (agora com 32), a série completa de DVD's do "Verão Azul", pelo Natal... foi vê-lo de lágrima no olho ... já eu suspirei (milhentas vezes) com a colectânea de videos dos WHAM que o maninho deu a moi :)

Realmente... às vezes sinto-me qual extraterrestre qdo falo aos meus alunos de séries como a Galactica, ou canto: era uma vez os três, os famosos moscãoteiros....

Deveria sentir-me "extra"sortuda por ter tido tudo aquilo que o "mister" Markl tão bem descreve!!

E, raios, se não me orgulho dos meus 35 e de ser a cota que deu a descobrir aos seus miúdos do 12ano os fantásticos Whitesnake, e a melodiosa guitarra de Steve Vai....

Teresa Durães said...

olha... o meu comentário não gravou... bom... deixa...