Sunday, March 08, 2009

[al berto]

aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz

arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
junto ao coração

e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta

nem a vida nem o que dela resta nos consola
a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa

assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos e não voltaram
a telefonar.

35 comments:

Sanxeri said...

Hum, as ausências prolongadas custam imenso.

Adorei o poema. Lindo e forte.

Izzie said...

Ai que triste... :(

Sea star_ Hannanur said...

De um homem de Sines, não se podia esperar outra coisa, que um relato fiel da sida.
Al berto o escreveu assim e é bom reler.

kiss per té

veritas said...

Um dos meus poetas preferidos

"hoje vivo quase sempre sozinho
paciência
os momentos de infelicidade estão esquecidos

uma pétala de luz percorre as linhas da mão
o rosto é aquele que sonhei
e não o que a noite dos espelhos tenta dar-me"

Bjs. Boa semana.

Eu mesma! said...

Não conhecia o poema mas... muito bonito....

e sim.....
as saudades de quem está longe por vezes são dificeis de ultrapassar... aqui nem o tempo melhora essa distância....

Jinhos

eu... said...

Que poema tão lindo... amei..."nem a vida nem o que resta dela nos consola" bem verdade...

said...

tão bonito. tão forte! gostei muito do poema :)

Lu.a said...

O poema é lindo, lindo!

Marta Dantas said...

Desculpa nao ter falado muito contigo da ultima vez...
Como estás?

A.S. said...

Muitas vezes nos esquecemos que é muito ténue a linha da nossa existência! Porém, ao contrário do amor, a dor não fica arquivada nos arquivos do tempo!...

Um beijo...

Su said...

triste tal como a ausencia


jocas maradas.sempre

Apenas eu said...

Olá vela!
O post é sim Triste, mas nem só de Alegrias é feita a vida.
Faz tudo parte, nada como saber admiti-lo.

Já li alguns poemas deste Amigo, aqui da blogosfera, que já partiu...

Assim se perdem pessoas e vivências, mas guardam-se recordações.

Um Beijo Grande.

Teresa Durães said...

aqueles que não voltaram a telefonar fazem parte das fotografias dos meus mortos. sei que parece macabro mas é assim

O Espírito do Tai Chi said...

Cara Velinha,

O corpo é só o transporte do espirito...

Um abraço,

António Serra

Baila sem peso said...

quem sabe, velinhas
se lá do outro lado
a sua beleza poética
será ainda mais bela
do que esta...
aqui ficam saudades,
lá, talvez morem as verdades...

guardei o "cheiro a violetas nocturnas"...
muito lindo o poema

avec le temps...lindo...

um beijinho

ลndreia said...

Gostei do que li... Bastante mesmo!
E partilho esse mesmo sentimento... não é possível fazer de todo o luto a um amor que permanece tenuemente no coração...

Beijinho *

just me, an ordinary girl said...

que lindo...
não conhecia..

tenho muito medo dessas dores que fala o poema e que eu nunca senti, muito muito medo

Ana. said...

Já dizia Maria Rita:
"Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar"

Beijinhos!

Pedro S. Martins said...

Al Berto merecia muito mais. Muito mais.

a said...

Poesia é mesmo mais com a g e a Bethânia também.

Bjs
a

Há imagens difusas que se prendem sem dó na nossa memória.

g

Izzie said...

Se senti... tanto que as lágrimas correm e marcam a mesa, pousando mais leves. porque as foste segurar com esse abraço.
Obrigada

nOgS said...

Que lindo, Al Berto... e triste a imagem.

KiSS

Pedro S. Martins said...

"Al Berto merecia muito mais. Muito mais."

Merecia muito mais do que Portugal faz por ele.

João o Protestante said...

al berto é um poeta injustamente pouco divulgado...

Elogios não farei, basta conhecer um pouquinho da obra!

Em tempos fiz este video para publicar no blog, mesmo a calhar:

http://www.youtube.com/watch?v=s9c6u7lJwYY&feature=channel_page

1 beijo

borrowingme said...

seja o que for... o que possa dizer, escrever... apenas estraga e esmaga a força destas palavras.

bj

Carracinha Linda! said...

Olá Velinhas!

Não, não morri (ainda)!

A minha ausência deve-se ao facto de ter pouco tempo, pouco para contar e também andar nos últimos tempos por baixo em termos emocionais. Nem o brilho do sol traz alegria...

Beijoca grande e obrigada por te preocupares.

Rain Sister said...

Também gosto muito da escrita dele.
Beijos

Baila sem peso said...

- "quem não nos sente ou não nos telefona...é porque morreu!"
(deixaste no meu "Baila...")

e aqui voltei:
- há quem morra, estando vivo dentro dos nossos corações...
há quem viva, estando morto
só fazendo parte de ilusões...

a tua dor é muita, velinhas
sente-se...
deixo-te um sopro de brisa fresquinha, uma asa de brancura,
toda a minha ternura...e agarra a chama da vela, e faz um bailado de luz com ela!

quando os nossos dias apenas vão...as palavras não têm qualquer condão...

por isso hoje só deixo mais um beijinho com todo o meu carinho!

Beatriz Cró said...

Não queiras!

Pedrasnuas said...

A morte rouba a vida. Dessa verdade ninguém se livra.
Belo e sentido poema!

Beijo

Rebirth said...

Carrego comigo as marcas do dia em que soube que nunca mais me poderia ligar, o dia em que tudo o que o telefone me trouxe foi a notícia de que não mais me voltaria a ligar. Levou-o a doença maldita, cobarde, silenciosa... o cancro. Era amigo, irmão, confidente, pai...
Ligo-lhe eu, agora, só eu... em momentos em que mais ninguém vê as lágrimas que ainda hoje derramo pela dor da sua perda; ligo-lhe eu, ligo-lhe eu...

Fica bem

Teresa Santos said...

Velinha,

Não precisas de agradecimentos mas, mesmo assim, OBRIGADA por nos (re)trazeres o Al Berto. Enquanto houver alguém como tu, acredita que ele não morrerá.

Abraço.

vida de vidro said...

Sempre merecedor de ser lembrado, ele que traduziu toda a angústia de viver. **

Dawa said...

O Al Berto é um SENHOR!
Palavras belas, para uma situação tão triste...
Beijo

bARAUJO said...

um dos meus ESCRITORES de ELEIÇÃO.

não sei se começaste a ler o meu blog, ainda com o avatar com a capa do livro "O Medo"

beijo terno