Thursday, August 20, 2009

O canito não corta a barba_Clara Ferreira Alves


Na aldeia faziam-se ao mar. Quem não gostava cavava a terra. Depois chegaram os "espanhóis".
Todos os dias passo por ele, logo de manhãzinha, quando vou comprar o pão e beber a bica. Está parado numa esquina caiada. A olhar o fio do horizonte. Às vezes tem uma camisa de flanela de xadrez toda abotoada e outras vezes tem um blusão por cima, pardo do uso. O blusão deve ser para os dias em que a nortada quase lhe arranca da cabeça o boné. Pisca os olhos e mexe-se para fazer uma festa no cão: o canito não corta a barba! Um único dia mudou a frase: o canito gosta de água? Eu não sabia se era de beber ou do mar e disse que a do mar o canito não gostava muito. Não gosta de mar? Não nada?, perguntou ele. Nadar, nadava; não era o desporto favorito e fugia da água a sete pés. O velhote deu uma gargalhada e disse que tinha tido uns cães e que todos eles gostavam de água, mais a das barragens e dos rios do que a do mar. Nunca tínhamos tido uma conversa tão longa.
Acompanhou-me ao café da aldeia e pediu o costume. Um copinho de aguardente. Eram nove e meia. Um pouco cedo para aguardente, disse eu. Ainda pensei dizer "álcool" mas a palavra ficava sozinha no cenário. Esta gente diz tinto, branco, bagaço, medronho. As coisas pelos nomes. Atrás do balcão uma mulher enerva-se a servir torradas, meias-de-leite e sumos de laranja aos "espanhóis". Os espanhóis levantam-se cedo e pedem muitas tostas mistas em pão de fatia, com café com leite. Desorientam-na. Querem tudo ao mesmo tempo. Às vezes os "espanhóis" são ingleses, alemães, franceses. Quando peço uma fatia de torta de alfarroba ela aconselha-me a esperar pela torta fresca que virá à tarde e a deixar aquela para os "espanhóis".
O velhote, que tem uma idade entre 60 e 80 anos, a pele curtida pelo sol e umas mãos peludas e enormes que agarram o copo com delicadeza, tira um maço de cigarros do bolso da camisa de xadrez. Pall Mall. É estranho ver o nome Pall Mall no cenário rústico, como se os cigarros pertencessem a outro planeta, onde as pessoas vestem bem e falam "estrangeiro". O café tem uma máquina de venda de cigarros; os "espanhóis" desesperados pelo primeiro cigarro batem no metal quando ela não retribui o pedido. Às vezes a máquina fica sem cigarros e "os espanhóis" olham-na com angústia, coçando os cabelos crespos do mar.
Pergunto ao velhote se ele bebe todas as manhãs um copinho daqueles e se, não bebendo, fica mal disposto como os "espanhóis" que lutam com a máquina e a insultam por estar vazia. Dependência, diriam os peritos do álcool e do fumo. Dependência tóxica. Às vezes bebe uma cerveja. Nos dias de calor. Para matar a sede. A aguardente para matar o bicho. É do tempo em que se calava o choro das crianças de mama com um pano embebido em vinho e açúcar para elas ficarem sossegadinhas. Puxo-lhe pela memória. Como era a aldeia? Era uma aldeia pobre com meia dúzia de casas. Uma escola primária e uma igreja construídas pelo Salazar. Faziam-se ao mar e quem não gostava de mar ia embora ou cavava a terra; a terra ali nunca deu grande coisa por causa das areias e dos ventos. Quando começaram a construir as estradas muitos foram espalhar alcatrão, mais certo do que aguentar ondas e tempestades.
O mar é traiçoeiro, diz o velhote piscando mais os olhos, como se a faísca de mar ao fundo da aldeia o encandeasse. Mais traiçoeiro do que uma mulher. Ele teve uma boa mulher, muitos anos, e depois ficou viúvo. Ninguém para o amortalhar. Há muitos viúvos na aldeia, nem sabe porquê. Falam uns com os outros, não se sabe de quê. E teve dois rapazes, um foi para a Alemanha e o outro foi embora e anda nos barcos, lá por Espanha. Espanha onde? No Norte, lá para cima, para os gelos. Nos barcos de pesca que congelam o peixe ainda ele salta na rede. Vigo, a Biscaia? Longe, não muito certo do que representam estes nomes. Nos gelos. Finisterra, penso eu. A boa pesca era a do atum, aí é que se ganhava dinheiro. Muito atum havia pelos Algarves. Famílias inteiras a viver do atum. Depois vieram as estradas e os hotéis e agora toda a gente anda a vender as casas por bom dinheiro. Ele já quis vender a dele, as sobrinhas não deixaram. Uma casita velha. As sobrinhas têm é medo de que ele fique sem casa. Está rijo e são. A malta hoje só vê televisão, passam o tempo sentados. E muita droga.
Ele trabalhou toda a vida. Dá um golito. O tabaquinho é como se fosse família. Faz companhia. Bate outro cigarro e faz uma festa no cão. Malta fraca, comem torradas. Andam aí com as tábuas todos empoleirados e não sabem nada de mar. O mar é traiçoeiro. Surf, uma palavra tão deslocada como álcool. No Inverno, o mar nem vê-lo. Se o vissem todo atiçado fugiam a sete pés com a tábua. Ele nunca aprendeu a nadar. O canito é que sabe, com aquela barba. Fugir dele. Dá um estalo com a língua depois de escorropichar o copo.
[Expresso-08.08.2009]

Sunday, August 16, 2009

improviso.
vago é
vago.

mas

o que é poesia?
uma________________ pode ser o mar
ou chão.

se não for chão
é um quase algo
onde se encaminha.

o importante
é não deixar que as palavras
envelheçam dentro de mim
.

Saturday, August 08, 2009


Assim que eu abrir de novo os meus olhos,


Meus pensamentos já não serão mais livres,


E minha alma, vencida,


Errará novamente pelas estradas abandonadas.


Neste instante, porém,


Tudo me aproxima de mim mesmo.


Há uma solidão imensa aqui dentro.


Há janelas abertas recebendo a noite.


Nunca me pertenci tanto como neste momento.


Nunca te pertenci tanto como neste momento.


um dia muito triste na vida de homem alegre...Portugal de luto



Thursday, August 06, 2009

são dias menos felizes


há dias que nada acontece, ou que acontece tudo.são neles que encontro as respostas [e mais perguntas]para os meus desesperados medos.
hoje acordei assim.com uma louca vontade de me fazer arder como uma vela. queimar me com um café ou com nicotina .uma passa no cigarro, que desceria a queimar a garganta, sairia numa baforada redonda pelo nariz e explodiria com gozo quando o calor forte me queimasse em mim.
são demasiadas notícias más por estes dias.
vivo por vício rabiscando espaços vazios.

Monday, August 03, 2009

coisas de que gosto

uma musica






um poema

No lugar dos palácios desertos e em ruínas
À beira do mar,
Leiamos, sorrindo, os segredos das sinais
De quem sabe amar.
Qualquer que ele seja, o destino daqueles
Que o amor levou
Para a sombra, ou na luz se fez a sombra deles,
Qualquer fosse o vôo.
Por certo eles foram mais reais e felizes.

Fernando Pessoa

um filme






uma frase

O presente é a grande folha onde escrevemos.

José Luís Peixoto



um momento

Thursday, July 30, 2009

velas

velas
mais que promessas de luz
ardem secretas.
velas
quebram a noite
como cristal.
velas
como poesia
são panos que forraram
a alma
no meio do vendaval.

Tuesday, July 28, 2009

- Escrever não é falar.
- Não? Qual é a diferença?
- É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.
No teu deserto_Miguel Sousa Tavares

Tuesday, July 21, 2009

para mim e para ti


sabes o que somos?

instantes.

nada mais do que instantes.

pequenos momentos esticados .

pessoas jogadas como espantalhos.

com sonhos incompletos a lutarmos

no abismo dos sentidos.

almas loucas e solitarias no meio de tantas mais.

somos instantes.

frágeis e desprovidos de calma e sensatez.

fantasmas

de

mergulhos azuis interrompidos.

vomitando momentos

agarrados a nós próprios.

e quando vomitamos

estamos sós

mesmo escutando as vozes que nos

perturbam

e que

quando vencemos o silêncio

são memórias baldias

que permanecem

e não nos deixam ficar

em paz.

Saturday, July 18, 2009

voo rasante

voo,
voo rasante.
dentro de mim
é
necessário
o movimento do sangue
no labirinto de veias que o leva

até onde voo.
voo rasante.

ninguém pode prever o quanto somos capazes de voar até abrirmos as asas!

Wednesday, July 15, 2009

pensar enlouquece

falo sobre snooker e poker
estou a pensar na vida.


não vou falar de cafés ,cigarros ou de álcool.


porque pensar enlouquece
cheguei a uma conclusão sobre a vida,
talvez despretenciosa
mas que vou diluir nas próximas linhas
e aguardo que vocês destilem nos comentários.


snooker

veludo verde.
ao jogarmos deixamos claro para onde queremos que a bola vá.
ela até pode ganhar "efeito" mas é clara a nossa jogada.


poker

nunca revelamos as nossas cartas e estamos sempre na incerteza de quem é o melhor" bluffer".
uma corda bamba.

prefiro o snooker ao poker

no primeiro podemos ser sinceros e expor nossas apostas,
enquanto no segundo temos que disfarça-las.

mas como disse
pensar enlouquece.

Sunday, July 12, 2009

saudade de ti

saudade
saudade é algo que se sente
saudade é algo que dói no peito
saudade é algo que me tira o sono
saudade é algo que faz demorar o tempo a passar
saudade é algo que sinto constantemente,
desde quando te vi partir
tenho saudade de ti

muito tempo em casa é no que dá

2 filmes

Spider









Londres, East End, anos 60 e 80. Spider (Bradley Hall), um rapaz muito perturbado, "vê" o pai (Gabriel Byrne) matar brutalmente a sua mãe e substituí-la por uma prostituta, Yvonne (Miranda Richardson). Convencido que eles também o querem matar, Spider elabora um plano diabólico que leva a cabo com trágicos resultados. Anos mais tarde, Spider (Ralph Fiennes) é deixado numa casa de acolhimento para doentes mentais, onde a dona, Mrs. Wilkinson (Lynn Redgrave), lhe dá pouca atenção. Sem vigilância, Spider deixa de tomar os medicamentos e começa a revisitar os fantasmas da sua infância. As suas tentativas para entender o passado, levam Spider a entrar numa espiral irreversível de loucura...

Um filme a ver por tantos daqueles que desprezam os loucos ou doentes mentais, como gostarem mais de lhes chamar, porque pior que não estar bem é não saber pedir ajuda.Pior ainda é, como em Spider, quando as memórias não correspondem necessariamente, ou sempre, à realidade mas as levamos até às ultimas consequências...a loucura.
O filme que nos leva a pensar sobre a vida, a mentira e a verdade.No fim, eu prefiro me louca assumida!


Feios, porcos e maus







Vencedor do prémio para melhor realização no Festival Cannes de 1978, FEIOS, PORCOS E MAUS é um dos melhores filmes do realizador Ettore Scola .Giacinto Mazzatella (Nino Manfredi), um ex-operário que recebeu um milhão de liras de indemnização após ter perdido um olho num acidente de trabalho, mora com a esposa, os dez filhos e vários parentes, numa barraca de um bairro degradado da periferia de Roma. Movido pelo egoísmo e pela avareza, esconde o dinheiro que recebeu do seguro e, com medo que alguém o roube, dorme abraçado a uma caçadeira obrigando os outros (mais de 20) a comer, dormir e fazer sexo na mesma divisão da barraca. A situação complica-se quando Giacinto leva para 'casa' uma prostituta e começa a gastar o dinheiro comprando-lhe presentes.

"Feios, Porcos e Maus" releva as condições degradantes da vida humana num retrato de miséria, egoísmo, mentira, promiscuidade, traição, incesto e violência. Começo por sorrir, depois rir e a certa altura dou por mim muito séria a olhar para o écran, cada vez mais séria até ao fim do filme.Tudo aquilo é nojento, desde as refeições ao aspecto da família, degradante, promíscuo, miserável.O título diz tudo, e bem.O filme é excelente.


1 CD



algumas das musicas deste cd estão a tocar aqui no Velas esta semana...


1 poema


Julgava que te tinha dito adeus,

um adeus contundente, ao deitar-me,

quando pude por fim fechar os olhos,

esquecer-me de ti, dessas argúcias,

dessa tua insistência, teu mau génio,

tua capacidade de anular-me.

Julgava que te tinha dito adeus

de todo e para sempre, mas acordo,

encontro-te de novo junto a mim,

dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,

invades-me, afogas-me, diante

dos meus olhos, em frente à minha vida,

por sob a minha sombra, nas entranhas,

em cada golpe do meu sangue, entras

por meu nariz quando respiro, vês

pelas minhas pupilas, lanças fogo

nas palavras que minha boca diz.

E agora que faço?, como posso

desterrar-te de mim ou adaptar-me

a conviver contigo? Principie-se

por demonstrar maneiras impecáveis.

Bom dia, tristeza.

amalia bautista


Thursday, July 09, 2009

a girafa,o galo e a cabra

um pouco
de tudo
e do nada.
girassol com sardas.
caracol distraído.
tijolo sobre tijolo
- as pintas do corpo -
ergue-se
a girafa
Sergio de Castro Pinto




Tenório nasceu duma ninhada que a Senhora Maria Puga deitou amorosamente debaixo das asas da Pedrês, no dia doze de Janeiro, pelas três da tarde. À primeira vista quando a sua cabecita saiu da casca do ovo a senhora Maria achou logo que seria um frango.
Aquela sua amostra de crista poucas semanas depois já parecia uma mitra.
Por altura da Ascensão, Tenório viu os seus irmãos serem degolados para darem umas belas dumas refeições caseiras. Mas a sua dona preferiu mantê-lo para a semente. A certeza de continuar vivo e saber da sorte que teve, enchiam a alma de Tenório duma confiança cega e só mais tarde lhe foi revelado o seu destino.
Num certo dia de Outubro ao amanhecer, sentiu uma ânsia enorme de abrir o peito e cantar ao mundo não sabia muito bem o quê. Sentia-se febril, mas não doente; uma estranha sensação percorria-lhe o corpo; aterrado, tolhido de medo e de pudor não conseguiu refrear aquela sensação e cantou:
Cá-que-rá-cá-cá....!
Cá-que-rá-cá-cá....!
Acordou toda a gente como se um raio tivesse caído no galinheiro, despertando a mãe, as primas e os irmãos. Tenório já não era nenhum frango era um galo. O peito almofadado de penas, os esporões que cresciam dia após dia nas pernas lisas e musculadas faziam dele um belíssimo galo. Durante muito tempo Tenório foi o rei da galinheira e o orgulho de todos. No entanto os seus cantos já não se faziam apenas pela madrugada para acordar todo o pessoal e chamar para as tarefas diárias. Começou também a cantar à meia-noite, às tantas da manhã, e várias vezes pelo dia fora.
Mas um dia, outro galo mais jovem preparou-se para suceder a Tenório, que era agora considerado como o velho galo. Para cúmulo tratava-se do seu próprio filho e três anos depois de cantar pela primeira vez, Tenório ouviu o seu filho substituí-lo no cantar do amanhecer, acabando por ter o mesmo fim que os seus irmãos.
Miguel Torga
A cabra é negra.
Mas seu negro
não é o negro do ébano douto
(que é quase azul) ou o negro rico
do jacarandá (mais bem roxo).
O negro da cabra é o negro
do preto, do pobre, do pouco.
Negro da poeira, que é cinzento.
Negro da ferrugem, que é fosco.
Negro do feio, às vezes branco.
Ou o negro do pardo, que é pardo.
disso que não chega a ter cor
ou perdeu toda cor no gasto.
É o negro da segunda classe.
Do inferior (que é sempre opaco).
Disso que não pode ter cor
porque em negro sai mais barato.
João Cabral de Melo Neto - Obra completa


e vocês de que animal gostam mais?
eu é do cão.
e logo a seguir da girafa.

Sunday, July 05, 2009

alguns ainda se
iludem com adocicar o
corpo, fazem-no em
pânico ignorantes do fermento
que é para a alma, ficam gordos
preparados para serem despojados
das carnes que inutilizaram, e já os
junto à terra como se
evadidos para o pó, a
criarem esperanças
parvas nos outros.

valter hugo mãe
para vos engordar a alma
útero

GOVERNO - Meio Bicho e Fogo from 8 e Meio on Vimeo.

[«meio bicho e fogo» é o primeiro tema do projecto musical governo.composto por miguel pedro (fundador de bandas como mão morta e mundo cão) com letra de valter hugo mãe.o projecto governo é composto por antónio rafael (também dos mãos morta) nas teclas, henrique fernandes no contrabaixo, miguel pedro na percussão e programações e valter hugo mãe na voz.]

Thursday, July 02, 2009

senhoras e senhores

senhoras e senhores
ando silenciosa
a alma precisa de tempo para,
num outro tempo, talvez,
transcrever o que absorveu de belo.
senhoras e senhores
no país das maravilhas a menina caiu.
de medo e sem rédeas
desabei.
flutuando no caos,
perdida no todo.
na cabeça a vida corre
como um rio,
memórias do agora sem forma de amanhã.
a tristeza é sempre funda.
senhoras e senhores,
começou a corrida sem o sinal sonoro de partida.
não é tempo. haverá tempo?
o tempo dirá.
a tempo. será?

Tuesday, June 30, 2009

momentos eternos





Gosto de me deitar
sem sono
para ficar
a lembrar-me
das coisas boas
deitada
dentro da cama
às escuras
de olhos fechados
abraçada a mim.

Adília Lopes_ Obra

Monday, June 29, 2009

...destinos...

não respiro.
suspendo.
ouço sons
não os entendo
parecem lamacentos
como lamentos que não pretendo.
olho
levantando o olhar,
sim sou capaz.
ainda.
quero ver o que ainda não sei
uma luz brilhante e aconchegante
mas apenas giram no céu nuvens de chumbo.
a inércia
paralisa me o corpo mas principamente a alma.
sinto me tão cansada.
quero movimentar me mas não tenho forças
fraquejo eu
e a vontade.
só os dias passam
a dor permanece imóvel ao meu redor.
parecem tantos caminhos
sem mapa mas com muita inquietude
incerteza.
a cabeça não para.solta de palavras e ideias.
tristes.ou menos alegres.
o porto do agora
não é destino mas sim passagem.

Eis a nossa sina:esquecer para ter passado

mentir para ter destino.

Mia Couto

Saturday, June 27, 2009

Waiting on an angel
one to carry me home
hope you come to see me soon
cause I don't want to go alone
I don't want to go alone.
[Ben Harper]
I'd like to disappear.

Tuesday, June 23, 2009

jogo do meme

Ofereceram me este jogo do meme no aArtmus e eu aceitei!
[As regras iniciais eram escolher um(a) cantor(a) ou um grupo; para cada pergunta, dar como resposta um título ou um trecho de suas músicas.Com estas regras o jogo já foi cumprido aqui no
Velas!]


Eu gostei da ideia de inverter as regras do jogo e vai daí vou joga lo com textos em prosa, poesia ou citações dos meus autores preferidos, e desta forma vou responder às perguntas partilhando quem sou.


És homem ou mulher?


As mulheres voam
como os anjos:
Com as suas asas feitas de cristal de rocha da memória
Disponíveis para voar soltas...
Primeiro lentamente: uma por uma
Depois, iguais aos pássaros
…fundas.

...
Maria Teresa Horta- Anjos mulheres


Descreve-te…


A parte invisível do visível.
De resto conhecer mais o quê?
O Manifesto do Invisível.
Gonçalo M. Tavares-Investigações. Novalis



O que as pessoas acham de ti?


Todos julgam segundo a aparência, ninguém segundo a essência.
Friedrich Schiller



Como descreves teu último relacionamento?
Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim... e que valeu a pena.
Mário Quintana


Descreve o momento actual de tua relação:

Aproximo-me da noite
o silêncio abre os seus panos escuros
e as coisas escorrem
por óleo frio e espesso
Esta deveria ser a hora
em que me recolheria
como um poente
no bater do teu peito
mas a solidão
entra pelos meus vidros
e nas suas enlutadas mãos
solto o meu delírio.
...
Mia Couto- Raiz de Orvalho e Outros Poemas

Onde querias estar agora?


Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca viram
os céus mediterrânicos
Mário Cesariny-Poemas de Londres

O que pensas a respeito do amor?


Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração à moda antiga. Um covarde, moleque que insiste em pregar peças no seu usuário. Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões. Um pouco inconsequente, que nunca desiste de acreditar nas pessoas. Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu: «Não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero!» Um idealista!!! Um verdadeiro sonhador... Rifa-se um coração que nunca aprende, que não endurece e mantém sempre a esperança de ser feliz, sendo simples e natural. Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso que vive procurando relações e emoções verdadeiras. Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, que briga e que se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões. Sai do sério e, às vezes, revê suas posições arrependidas de palavras e gestos. Esse coração tantas vezes incompreendido, tantas vezes provocado, tantas vezes impulsivo. Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá para engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente e contra-indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções. Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer pra São Pedro na hora da prestação de contas: «O Senhor pode conferir, eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e se recusa a envelhecer». Rifa-se um coração ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconsequente. Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado. Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adoptado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo. Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina. Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta.
Clarice Lispector



Qual o lema da tua vida?

Devemos andar sempre bêbados.
É a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo que te pesa sobre os ombros e te verga ao encontro da terra, deves embriagar-te sem cessar.
Com vinho, com poesia, ou com a virtude.
Escolhe tu, mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre as verdes ervas de uma vala, na solidão morna do teu quarto, tu acordares com a embriaguez atenuada, pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio, a tudo o que se passou, a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala; pergunta-lhes que horas são:
São horas de te embriagares.
Para não seres como os escravos martirizados do tempo, embriaga-te, embriaga-te sem descanso.
Com vinho, com poesia. Ou com a virtude.
Charles Baudelaire



O que pedias como único desejo?


Vontade de mergulhar sem oxigénio no oceano
e entrar no colo das ondas.
Andreia- A menina dos olhos de água

Sunday, June 21, 2009

a minha alma


não sei o que faço!
o que faço para viver com a minha alma
oculta que vive comigo,
que se deita ao meu lado,
e que cruamente lança verdades dentro de mim.
posso viver assim?
uma alma de espinhos
muito compridos que estoiram as minhas bolhas de ilusão,
como se a alma estivesse gravada na palma de minha mão.
agarrada...sugando...
a minha alma faz me desprender as coisas que eu quero esquecer...
eu, louca desvairada, mexo e remexo na intimidades desta alma,
de mil cores,de mil facetas, mil tristezas.
nesta alma,
as faces são muitas,
com outras vozes, outros amores, outros desamores, outros prazeres e com muitas feridas.
nem todas cicatrizadas.
era bom ter um camarim, cheio de pós e purpurinas, para disfarçar esta alma.
pois é..não sei como encará la,
tão dividida,
como deitá la fora de vez da minha vida?
sinto como se constantemente lhe estivesse a acenar um adeus
imaginário,
real,
não sei!
a minha alma não sabe quando partir,
não me deixar respirar,
e
divide em mim o meu coração...

Sunday, June 14, 2009

de regresso


olho-te a ti Lisboa,
um sol translúcido, brilhando.
Lisboa
dos ricos e dos pobres,
dos ignorantes e
dos doutores em coisa nenhuma.
a Lisboa da vida e da morte
jogada numa infinita peça
com um elenco invejável de epopeias monumentais.
a Lisboa do Camões
ou a Lisboa do Pessoa.
olho-te a ti Lisboa,
identidade própria que inebria o
menos sensível dos corações.
serás sempre Lisboa,
terra dos sonhos
e das ilusões.
olho-te a ti Lisboa, amiga...

Wednesday, June 10, 2009

Lagos III_Sophia de Mello Breyner Andresen

Vais pela estrada que é de terra amarela e quase sem nenhuma sombra. As cigarras cantarão o silêncio de bronze. À tua direita irá primeiro um muro caiado que desenha a curva da estrada. Depois encontrarás as figueiras transparentes e enroladas; mas os seus ramos não dão nenhuma sombra. E assim irás sempre em frente com a pesada mão do Sol pousada nos teus ombros, mas conduzida por uma luz levíssima e fresca. Até chegares às muralhas antigas da cidade que estão em ruínas. Passa debaixo da porta e vai pelas pequenas ruas estreitas, direitas e brancas, até encontrares em frente do mar uma grande praça quadrada e clara que tem no centro uma estátua. Segue entre as casas e o mar até ao mercado que fica depois de uma alta parede amarela. Aí deves parar e olhar um instante para o largo pois ali o visível se vê até ao fim. E olha bem o branco, o puro branco, o branco de cal onde a luz cai a direito. Também ali entre a cidade e a água não encontrarás nenhuma sombra; abriga-te por isso no sopro corrido e fresco do mar. Entra no mercado e vira à tua direita e ao terceiro homem que encontrares em frente da terceira banca de pedra compra peixes. Os peixes são azuis e brilhantes e escuros com malhas pretas. E o homem há-de pedir-te que vejas como as suas guelras são encarnadas e que vejas bem como o seu azul é profundo e como eles cheiram realmente, realmente a mar. Depois verás peixes pretos e vermelhos e cor-de-rosa e cor de prata. E verás os polvos cor de pedra e as conchas, os búzios e as espadas do mar. E a luz se tornará líquida e o próprio ar salgado e um caranguejo irá correndo sobre uma mesa de pedra. À tua direita então verás uma escada: sobe depressa mas sem tocar no velho cego que desce devagar. E ao cimo da escada está uma mulher de meia idade com rugas finas e leves na cara. E tem ao pescoço uma medalha de ouro com o retrato do filho que morreu. Pede-lhe que te dê um ramo de louro, um ramo de orégãos, um ramo de salsa e um ramo de hortelã. Mais adiante compra figos pretos: mas os figos não são pretos mas azuis e dentro são cor-de-rosa e de todos eles corre uma lágrima de mel. Depois vai de vendedor em vendedor e enche os teus cestos de frutos, hortaliças, ervas, orvalhos e limões. Depois desce a escada, sai do mercado e caminha para o centro da cidade. Agora aí verás que ao longo das paredes nasceu uma serpente de sombra azul, estreita e comprida. Caminha rente às casas. Num dos teus ombros pousará a mão da sombra, no outro a mão do Sol. Caminha até encontrares uma igreja alta e quadrada.Lá dentro ficarás ajoelhada na penumbra olhando o branco das paredes e o brilho azul dos azulejos. Aí escutarás o silêncio. Aí se levantará como um canto o teu amor pelas coisas visíveis que é a tua oração em frente do grande Deus invisível.[texto escrito por Sophia que retrata a forma como ensinou a sua empregada como ir a pé da casa de férias em Lagos até ao mercado na mesma cidade. enunciou-lhe o caminho, mostrando lhe o que veria a cada passo.belissimo este texto...digo eu!]

Monday, June 08, 2009

Lagos I e II_Sophia de Mello Breyner Andresen

Lagos I
"Un jour a Lagos ouverte sur la mer comme l’autre Lagos"
Senghor

Em Lagos
Virada para o mar como a outra
Lagos
Muitas vezes penso em Leopoldo Sedar Senghor:
A precisa limpidez de Lagos onde a limpeza
É uma arte poética e uma forma de honestidade
Acorda em mim a nostalgia de um projecto
Racional limpo e poético
Os ditadores – é sabido – não olham para os mapas
Suas excursões desmesuradas fundam-se em confusões
O seu ditado vai deixando jovens corpos mortos pelos caminhos
Jovens corpos mortos ao longo das extensões
Na precisa claridade de Lagos é-me mais difícil
Aceitar o confuso o disforme a ocultação
Na nitidez de Lagos onde o visível
Tem o recorte simples e claro de um projecto
O meu amor da geometria e do concreto
Rejeita o balofo oco da degradação
Na luz de Lagos matinal e aberta
Na praça quadrada tão concisa e grega
Na brancura da cal tão veemente e directa
O meu país se invoca e se projecta.


Lagos II

I
Lagos onde reenventei o mundo num verão ido
Lagos onde encontrei
Uma nova forma do visível sem memória
Clara como a cal concreta como a cal
Lagos onde aprendi a viver rente
Ao instante mais nítido e recente
Lagos que digo como passado agora
Como verão ido absurdamente ausente
Quase estranho a mim e nunca tido

II
Foi um país que eu encontrei de frente
Desde sempre esperado e prometido
O puro dom de ter nascido
E o sol reinava em Lagos transparente
III

Lagos lição de lucidez e liso
Onde estar vivo se torna mais completo
- Como pode meu ser ser distraído
De sua luz de prumo e de projecto?

IV
Ou poderemos Abril ter perdido
O dia inicial inteiro e limpo
Que habitou nosso tempo mais concreto?
Será que vamos paralelamente
Relembrar e chorar como um verão ido
O país linear e transparente
E sua luz de prumo e de projecto.

Saturday, June 06, 2009

Saturday, May 30, 2009

50 eu's...

o Dias pediu me 8 características minhas mas eu como sempre estiquei me às 50!
a ver mais abaixo...
Eu sou baixa.
Eu adoro animais, em especial cães.
Eu sou muito encalorada.
Eu mudo de humor com muita frequência.
Eu sou apaixonada por livros.
Eu estou sempre prestes a falar de algo importante.
Eu gosto muito de dormir.
Eu adoro praia.
Eu gostava de saber o que desperto nos outros.
Eu não sei medir a minha força física .
Eu gosto de encontrar frases que digam algo sobre mim seja em livros ou músicas.
Eu não gosto de despedidas.
Eu gosto de ser key account manager de empresas vitivinícolas.
Eu adoro chá de menta.
Eu detesto casamentos.
Eu acho que tenho piada.
Eu não gosto de beber água.
Eu não sonho.
Eu sou muito chorona.
Eu gosto de homens.
Eu gosto de usar calças de ganga.
Eu tenho e tive poucos casos amorosos.
Eu gosto muito da minha família e dos meus amigos.
Eu adoro abraços apertados.
Eu detesto ter que andar vestida de maneira clássica.
Eu adoro ténis All Star.
Eu não sei onde quero estar daqui a 5 anos.
Eu gostava de ter um Volvo C30 mas tenho um Citröen C2.
Eu nunca tive um namorado loiro e também não quero.
Eu adoro vinho tinto.
Eu não gosto de dividir o WC com ninguém.
Eu adoro andar de sandálias.
Eu gostava de não pensar tanto.
Eu adoro música.
Eu não digo asneiras.(ok...digo merda).
Eu adoro viajar.
Eu não gosto de touradas.
Eu gosto de escrever.
Eu gosto de ajudar quem precisa
Eu gosto de politica.
Eu não sei receber elogios.
Eu defendo me por impulso quando me criticam.
Eu odeio mentiras.
Eu adoro amarelo.
Eu não gosto de pés.
Eu gosto de me rir e que me façam rir.
Eu adoro mãos.
Eu não gosto de multidões.
Eu gosto do meu nome.
Eu sou muito ansiosa.

Thursday, May 28, 2009

jacarandás e pós...uma montanha de disparates!


todos os dias à minha frente, da janela do meu local de trabalho, vejo jacarandás.lindissimos.

tirando isso estou com uma imensa alergia!espirros e pingo no nariz...

se calhar fico bem no meio dos pós. entre nós, modernos ou antigos, pós-literários, pós-insustentáveis pelo ar, pó...

mas não será que o tempo está marcado pelos pós???pós-musicais, pós-existenciais, entre o pó e o tempo, pé de vento e o entretenimento do tempo...

eu abandonei em definitivo o pano laranja preso no farto pó.desisti de o limpar!

já tenho a certeza. fico bem no meio dos pós, não do pó, cá entre os nós, como uma especie de bengala no bengaleiro, velho e antigo mas dos pós modernos.quem diria?

quem diria que fico bem no meio dos pós e ver todos os dias os jacarandás.

os pós caem me bem!

alma mofa, debaixo de uma almofada presa no esquecimento, apenas acordada entre o atrevimento do dor-dói-cura-cicatriz...levantar.que o caminho faz se caminhando.

a sério que sim.fico bem acordada no meio dos pós... .estática. mas não a meter dó...

todos os dias os vejo.os jacarandás...transportam saudade, um ar de felicidade e uma lágrima pendurada que fica mesmo bem em pó.

Tuesday, May 26, 2009

blogosfera

Este blogue só existe porque gosto muito dele.Dá me prazer...enquanto, assim for, aqui estarei.
A amizade virtual é isso mesmo...virtual.Claro que se gostam mais de uns de que de outros, mas não se cobra nada a ninguém, como em qualquer amizade.Nada de diferente.Já todos pensamos como seria a pessoa que está por detrás de um blogue de que se gosta muito.Mas daí até julgar alguém ou cobrar lhe uma amizade que é apenas do dominio da blogosfera..acho um pouco precipitado.Acreditar que do outro lado está uma pessoa acima de todas as expectativas é disparatado.
Sei que não tenho muitos anos disto mas já tenho alguns e se há coisa que me irritam são comentário de cortezia, o " Visita-me", "Gostei do teu blogue. Passa no meu!" e por último o pior, quando se deixam pequenos textos em que se percebe que quem o fez não se deu ao trabalho de ler o post publicado.Sinceramente, ofende me.
Claro que se publico é porque quero ser lida, quero ter a vossa opinião mas prefiro não ter se não tiverem tempo para o fazer.Compreendo.Isto não é um jogo do deve e do haver.Não temos que visitar alguem só porque esse alguem nos visitou...porque melhor do que tudo, aqui não temos máscaras...somos como somos...lê quem quer ler...não temos que nos preocupar em nos visitar uns aos outros para sermos educados...Só assim estamos a ser leais.
Eu visito o Dias diariamente porque gosto dele, sem o conhecer, sem que ele tenha um post novo todos os dias...ele visita me quando pode e depois??A blogosfera é isto mesmo.Não é uma obrigação porque para isso já tenho o sítio onde trabalho.
E acabo como comecei...Este blogue só existe porque gosto muito dele.Dá me prazer...enquanto, assim for, aqui estarei.



Esquecer uma mulher inteligente custa um número incalculável de mulheres estúpidas.

[Antonio Lobo Antunes]

Friday, May 22, 2009

O amor vem da noite dos mortos_Inês Pedrosa

O que se vê e ouve quando as cores e as vozes adormecem.
Vêem-se melhor de noite, os olhos dos mortos. É por isso que eu gosto tanto de atravessar as noites em claro. Há dias, no fim de uma homenagem a Eduardo Prado Coelho, uma pessoa do público pediu que os oradores lhe explicassem o que seria o "orgasmo vertical" de que Eduardo falara uma vez, numa crónica. O pedido poderia parecer uma provocação - mas o halo de bonomia de Eduardo pairava no magnífico Jardim de Inverno do Teatro São Luiz, estilhaçando a possibilidade fácil da provocação.
Porém, só pela noite dentro entendi que a resposta certa seria: a morte. Não o instante do passamento, mas a existência vertical e intensa que os mortos passam a ter em nós, quando de verdade os amámos. Todo o amor é póstumo; enquanto o vivemos tem a impiedade do sol, que tudo mostra, ou seja, tudo esconde. O amor vivo é uma roda de alegria e dor, conforto e tédio. Entontece e anestesia. Só sob o manto da noite silenciosa o amor revela o seu brilho magnético e o seu trajecto de inamovíveis acontecimentos. Quando falamos dos nossos mortos, usamos as palavras como lençóis ou bandeiras em que todos se assemelham - bons, bravos, inteligentes, tão comuns na imortalidade que nada os distingue. É útil o ritual desta lembrança: dá-nos a ver que os mortos não têm cor, nem raça, nem classe social, nenhuma dessas grilhetas que tanto nos tolhem os passos da vida.
Quando evocamos esses que nos fazem falta no mudo desamparo das nossas almas de vivos, desdobramos os panos oficiosos e vemo-los fracos, humanos como foram, dobrados a trabalhos e vénias, sofrendo de ciúmes e invejas, sonhando em itálico, como se fossem eternos. Assim os evocamos na noite e no silêncio: pessoas frágeis tropeçando e caindo, enganando-se, sofrendo e perseverando. É essa a sabedoria que eles nos oferecem: o conhecimento da vida desperdiçada, a evidência do vão combate. Por isso são anjos, seres humanos que sobrevoam cada um de nós, secando-nos as lágrimas e sacudindo-nos a cobardia, e não santos capazes de nos falar do alto das nuvens, ou de nos abraçar em cordas de chuva. Só um dos meus mortos é santo, isto é, um mestre de memória exemplar.
Chama-se Haquira - um nome aberto em prece ou consolação. Dedicou toda a sua existência ao essencial: a descoberta do sentido particular de cada obra ou pessoa. O amor. Aplicou à doença a disciplina de serenidade que escolhera para a vida. Arrumou os papéis, despediu-se de cada um dos seus vivos sem jamais lhes dizer adeus, escrevendo a cada um as palavras exactas que lhes sabia em falta, e preparando-se para continuar a escrevê-las, através das estrelas das noites infinitas de cada um de nós.
Outro dos meus mortos, quando era vivo, escreveu um romance chamado "Os Nós e os Laços", reflectindo sobre as causas das guerrilhas sentimentais em que as pessoas se gastam, porque chamam amor a ambições e medos. Outro ainda escreveu um livro chamado "Valsa Lenta" em que os instrumentos da morte e da vida compunham uma única sinfonia. Na parede de um restaurante que ambos frequentavam, encontro-os sorrindo nas fotografias, ao lado de um outro morto que escreveu uma página sublime sobre o cemitério secreto em que ia enterrando os vivos que o traíam, continuando, depois do enterro, a sorrir e a conversar amavelmente com os seus fantasmas carnais.
É com os mortos que se aprende o amor, e por isso o amor chega sempre tarde - demasiadas vezes, no desespero de matar a morte, o amor nunca chega a tocar-nos, ou toca-nos apenas como um arroubo do corpo, que no corpo se prende e se esvai. O amor é a arte de encontrar no rosto do outro o espelho dos nossos sonhos. Nesta noite que atravesso, procurando o caminho das palavras na luz intermitente que a lua entrega à terra, vejo, sobre as pedras da cidade, os corpos adormecidos e abraçados de uma rapariga e de um rapaz.
Quando nascer o sol, apagando o sono e o abraço, vê-los-emos como a rapariga cigana e o rapaz cabo-verdeano que se apaixonaram e sofrem a perseguição das cores, dos documentos, das famílias, e que por isso não têm casa nem dinheiro nem comida. Durante a noite, no entanto, as cores desaparecem, e os corpos abraçados destes amantes revelam apenas o lugar do amor. Ou da "beleza ética", para recordar uma outra expressão feliz de Eduardo Prado Coelho, que sabia convocar a sombra que alonga as palavras e as faz caminhar, lentamente, para esse território sem fronteiras nem arestas que ele nomeava como a noite do mundo.

Tuesday, May 19, 2009

no dia em que morri

no dia em que eu morri
ninguém percebeu.
nem os que vivem à minha volta.
não estava doente
mas deveriam saber reconhecer um corpo inerte, um cadáver.
talvez não conseguissem - nenhum deles - ver além da forma imediata da matéria.
nem ver a ausência de luz por trás dos olhos.
ou o frio das mãos. as pontas dos dedos roxas.
mas principalmente,
a ausência progressiva do coração que se foi aos poucos, desfazendo se até que apenas o seu eco batia no meu peito.
o eco.
e assim,
dia após dia,
desde aquele dia,
todos me olham, tocam e falam
como se eu ainda fosse parte do grupo,
ainda estivesse viva.
mas sabem,
vou vos contar um segredo...
só eu e os bichinhos,
aqueles da madeira,
sabem que morri.
que me desintegrei em pedaços
disparados em milhões de direcções
e não segurei firme nenhuma mão
porque nenhuma me foi oferecida.
vivi muitos sonhos falsos
e sentei me em demasiados lugares ocupados
para no fim encontrar
apenas a ridícula solidão.
mas tu também saberias que morri se acaso me visses.
ou não...
se os teus olhos não estiverem já perdidos a espreitar horizontes longínquos.


Saturday, May 16, 2009

gostava muito de fazer o meu....(e adoro este texto!)


Se quiseres fazer azul,pega num pedaço de céu e mete-o numa panela grande,

que possas levar ao lume do horizonte;

depois mexe o azul com um resto de vermelho

da madrugada, até que ele se desfaça;

despeja tudo num bacio bem limpo,

para que nada reste das impurezas da tarde.

Por fim, peneira um resto de ouro da areia

do meio-dia, até que a cor pegue ao fundo de metal.

Se quiseres, para que as cores se não desprendam

com o tempo, deita no líquido um caroço de pêssego queimado.

Vê-lo-ás desfazer-se, sem deixar sinais de que alguma vez

ali o puseste; e nem o negro da cinza deixará um resto de ocre

na superfície dourada. Podes, então, levantar a cor

até à altura dos olhos, e compará-la com o azul autêntico.

Ambas as cores te parecerão semelhantes, sem que

possas distinguir entre uma e outra.

Assim o fiz – eu, Abraão ben Judá Ibn Haim,

iluminador de Loulé – e deixei a receita a quem quiser,

algum dia, imitar o céu.


[Receita para fazer o azul- Nuno Júdice]

Thursday, May 14, 2009

eu sabia!

as calorias são pequenos animais que vivem nos roupeiros e que durante a noite apertam a roupa das pessoas.
(recebido por email)