E ocorre-me o facto simples
que nunca mais as direi.
O dia foi nublado mas não choveu.
É tarde, é noite.
E penso nas semelhanças
entre os dias e a vida.
De quando a vida é nublada,
nuvens baixas e escuras, mas não chove.

Como se houvesse um obscuro,
por vezes irritante, propósito de manter a tensão.
Mas não há deuses, portanto não há propósito.
O facto é que não chove,
apenas estão lá as nuvens.
Nunca mais disse as mesmas palavras.
Não creio que as volte a dizer,
O tempo é estranho nas suas manifestações.
Sinto um prazer na vida
que me empurra a viver intensamente
e simultaneamente esses instantes
parados em aneis de fumo.
Eu sou a mesma que aos dez anos
ria alto à beira Tejo
E a mesma que se senta aqui,
num pedaço perdido do tempo,
sabendo que nunca mais dirá as mesmas palavras.
Mas que recosta a cabeça sem temores.
As palavras são muitas e várias.
Sou a mesma e não sou mais nenhuma.
A vida tem o definitivo.






































